A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, fez duras declarações em defesa da democracia e contra a tentativa de golpe articulada em 2022. A fala ocorreu neste domingo (30), durante participação na 1ª Festa Literária da Fundação (FliRui), realizada na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
No evento, a ministra afirmou que, caso o plano golpista tivesse sido bem-sucedido, ela mesma seria uma das primeiras a ser presa.
“Outro dia alguém me perguntava por que julgar uma tentativa de golpe, se foi apenas tentativa. Meu filho, se tivessem dado o golpe, eu estava na prisão, não poderia nem estar aqui julgando”, declarou.
Cármen Lúcia também lembrou que, nos processos relacionados aos atos antidemocráticos e ao 8 de Janeiro, há documentos que registram ordens explícitas para “neutralizar” ministros do Supremo.
“Nos processos que estamos julgando este ano, havia documentado, em palavras, a tentativa de ‘neutralizar’ alguns ministros do Supremo. As ordens estavam em palavras. A mesma coisa é a sentença: ela vem em palavras. Nós nos comunicamos pela palavra. A palavra traduz a alma de uma pessoa”, afirmou.
Durante o julgamento da trama golpista, veio à tona que o plano — chamado de Punhal Verde Amarelo — incluía ações violentas contra autoridades, como o assassinato do ministro Alexandre de Moraes e ataques contra o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu vice, Geraldo Alckmin (PSB).
Bolsonaro cumpre pena; núcleo golpista já está preso
A fala de Cármen Lúcia ocorre em um momento decisivo do processo: integrantes do chamado “núcleo 1” da trama golpista começaram a cumprir suas penas após o trânsito em julgado da decisão do STF. Entre eles está o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por atentado contra a democracia. Ele cumpre a pena na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
No discurso, a ministra também fez uma analogia entre a democracia e a manutenção de um jardim, destacando que regimes autoritários se proliferam com facilidade.
“A erva daninha da ditadura é igualzinha, não precisa de cuidado. Ela toma conta, ela surge do nada. Pra gente fazer florescer uma democracia na vida da gente, no espaço da gente, é preciso construir todo dia, é preciso trabalhar todo dia”, disse.
E concluiu reforçando a necessidade de vigilância constante:
“Por isso é que eu digo que democracia é uma experiência de vida que se escolhe, que se constrói, que se elabora. E a vida, como a democracia, se faz todo dia. A gente luta por ela, a gente faz com que ela prevaleça.”
A manifestação da ministra reforça o clima de tensão institucional que permanece após as revelações sobre a tentativa de golpe e ocorre poucos dias após o STF determinar o início imediato do cumprimento das penas dos réus condenados.



