A mobilização #LucinhaFica, construída por movimentos feministas e populares, ganhou força nesta semana com a divulgação de uma manifestação pública em defesa da manutenção da pré-candidatura de Lucinha, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A iniciativa se insere no âmbito da Campanha #ElasFicam, que atua nacionalmente no enfrentamento à violência política de gênero e raça e na permanência de mulheres negras nos espaços de poder.
No documento, os movimentos expressam “profundo repúdio” à retirada da candidatura, construída ao longo de mais de um ano junto às bases, territórios e organizações populares. Para a campanha, a decisão revela um padrão recorrente de limitação e interrupção da participação de mulheres negras nos espaços institucionais — inclusive dentro de setores progressistas.
“Não se trata de uma decisão neutra. Estamos falando do apagamento de uma construção coletiva, legítima, enraizada nos territórios e nas lutas populares. Retirar essa candidatura às vésperas das convenções é uma forma de silenciamento político”, explica Luana Malheiro, militante feminista anti-racismo da Campanha #Elas Ficam.
A manifestação destaca que a candidatura de Lucinha não é individual, mas resultado de um processo coletivo que mobilizou mulheres negras, movimentos sociais e organizações populares em diferentes regiões. O documento ressalta que: “existe um campo político organizado que reconhece em Lucinha uma liderança legítima, e não aceitaremos seu apagamento”.
Os movimentos também criticam o argumento da “divisão de votos”, frequentemente utilizado em disputas eleitorais. Segundo a campanha, essa lógica tem sido historicamente acionada para inviabilizar candidaturas populares — especialmente de mulheres negras — e restringir quem pode, de fato, disputar o poder.
“A chamada ‘unidade’ não pode ser construída à custa do apagamento das mulheres negras. Unidade sem escuta, sem respeito e sem reconhecimento não é unidade — é imposição”, reforça Luana.
Violência política de gênero e raça
Além disso, a Campanha #ElasFicam aponta que a retirada da candidatura pode configurar violência política de gênero e raça, ao deslegitimar uma liderança construída com base social e impedir sua plena participação no processo eleitoral.
A militante Luana Malheiro contextualiza que: “a gente precisa nomear o que está acontecendo. Isso não é apenas uma decisão política. É uma prática que desestimula, desinveste e tenta fazer com que candidaturas de mulheres negras desapareçam antes mesmo de disputar. E isso é inaceitável”.
Os movimentos alertam ainda para o contexto mais amplo de aumento da violência contra mulheres, especialmente nos territórios mais vulnerabilizados, e defendem a importância de candidaturas que tenham compromisso direto com essas agendas. “Lucinha representa uma política que nasce da luta, que entende a realidade das mulheres e a urgência de fortalecer redes de proteção e enfrentamento à violência. Não é possível substituir essa experiência por decisões tomadas de forma verticalizada.”, completa a militante.
A campanha reforça que a defesa da candidatura é também a defesa de um projeto político baseado no feminismo negro, na democracia participativa e na presença efetiva das mulheres negras nos espaços de poder.
Para a Campanha #ElasFicam, a manutenção dessa decisão terá consequências políticas. “Nós sabemos o peso da nossa mobilização e não abriremos mão dela. Essa candidatura é coletiva. Essa candidatura é nossa”, conclui Luana.
Ao final da manifestação, a Campanha #ElasFicam reafirma: “Não existe democracia sem a presença e a disputa das mulheres negras. Lucinha fica.”



