A escalada recente dos casos de feminicídio no Brasil motivou a realização de um ato nacional em defesa da vida das mulheres neste domingo (7). Em Brasília, a manifestação ocorreu na Torre de TV e contou com a presença da primeira-dama Janja Lula da Silva e de ministras do governo federal, reunindo centenas de pessoas em um protesto marcado por discursos de indignação, pedidos por mudanças na legislação e cobranças por políticas públicas mais efetivas.
O movimento, batizado de “Levante Mulheres Vivas”, mobilizou atos em pelo menos 20 estados do país, segundo as organizadoras. Na capital federal, além de Janja, participaram a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco; a ministra das Mulheres, Márcia Lopes; a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann; a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; e a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, entre outras autoridades.
Em seu discurso, Janja destacou a gravidade do cenário e lamentou que o país ainda enfrente índices elevados de violência contra mulheres. “Eu queria, sinceramente, estar reunida com vocês para comemorar resultados felizes, dias felizes. Mas infelizmente não é isso que a gente tem visto no nosso Brasil tão amado”, afirmou.
Nas redes sociais, a primeira-dama reforçou a importância da mobilização coletiva. “Em um país onde o feminicídio ainda interrompe vozes e vidas diariamente, a união de todas as pessoas é um ato urgente. Mulheres, homens e toda a sociedade precisam caminhar lado a lado, rompendo o silêncio, cobrando justiça e apoiando quem sofre violência”, escreveu Janja. “Que esse grito siga ecoando todos os dias. Combater o feminicídio não é apenas defender vidas, é afirmar que nenhuma brasileira deve viver com medo”, completou.
Durante o ato, Janja também defendeu mudanças urgentes na legislação e punições mais rigorosas para autores desse tipo de crime. “A gente precisa de penas mais duras para o feminicídio. Não é possível um homem matar uma mulher e, uma semana depois, estar na rua para matar outra. Isso não pode acontecer”, disse.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que o enfrentamento à violência passa também pela ampliação da participação feminina na política. Ela defendeu que as mulheres ocupem ao menos metade dos cargos eletivos do país e pediu que a sociedade rejeite candidatos que agridem ou desrespeitam mulheres. Já a ministra Gleisi Hoffmann destacou a necessidade de envolvimento dos homens na luta. “Essa é uma luta de toda a sociedade. Precisamos unir forças para eliminar essa chaga, que tem raízes históricas e culturais”, afirmou.
A ministra Anielle Franco relembrou o assassinato da irmã, a vereadora Marielle Franco, e destacou o impacto da violência política e de gênero sobre mulheres negras. Sônia Guajajara denunciou a invisibilidade da violência contra mulheres indígenas, enquanto Luciana Santos ressaltou que a luta por igualdade exige políticas que garantam avanços no mercado de trabalho, na ciência e nos espaços de poder.
Dados oficiais reforçam a dimensão do problema. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre janeiro e setembro deste ano, cerca de 2,7 mil mulheres sofreram tentativa de feminicídio, e 1.077 foram assassinadas no país — média de quatro mortes por dia. Em Minas Gerais, apenas no primeiro semestre, foram registrados 78.697 casos de violência doméstica e 167 ocorrências de feminicídio, entre mortes consumadas e tentativas. Já o Mapa Nacional da Violência de Gênero aponta que, em 2024, 1.459 mulheres foram mortas por razões de gênero, enquanto 2025 já ultrapassou 1.180 casos.
O ato deste domingo buscou dar visibilidade a esses números e reforçar a cobrança por respostas mais firmes do poder público. Para as organizadoras, a mobilização nacional simboliza um alerta de que o combate ao feminicídio deve ser prioridade permanente do Estado e da sociedade brasileira.



