A eleição para governador da Bahia, de 2022, se depara com um script parecido com o ocorrido nas eleições de 2018.
Um candidato bem avaliado comunica às vésperas da janela eleitoral que não irá concorrer, provocando uma desorganização no grupo e a criação de estratégias às pressas para substituí-lo.
Ao ratificar que não será mais candidato, Jaques Wagner (PT) não apresentou um nome para substtuí-lo, apenas indicou que estará ao lado do nome a ser escolhido pelo partido.
Nos últimos dias foi costurado um acordo para o senador Otto Alencar (PSD) ser o candidato ao governo da Bahia, tendo ao seu lado na chapa, na disputa ao Senado Federal, o governador Rui Costa (PT).
O PP teria como contrapartida para essa solução um governo de nove meses e a vice na chapa.
Todos os caciques, inclusive o próprio Jaques Wagner (PT), segundo apuração de bastidores do OFF News, concordaram com a tese.
O problema é que a solução encontrada na cúpula não foi construída em diálogo com a base, o que provocou manifestações públicas de partidos como PCdoB e PSB, que defenderam o nome de Jaques Wagner (PT) como candidato.
Apesar da concordância de dois de seus líderes, a maior parte dos membros do Partido dos Trabalhadores se manifestaram contra essa tese. Ao OFF News, o deputado federal Jorge Solla (PT) revelou que a tese mais palatável é a do PT indicar outro nome para cabeça de chapa forçando com isso o governador Rui Costa a ficar até o fim do mandato.
Mudança
O presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Menezs (PSD), admite que a não candidatura de Wagner causa impacto no grupo. Entretando, ele pontua que há na alianças diversas lideranças que podem substituir o petista e que há sobre o controle do grupo um número grande de prefeituras, coisa que o então prefeito de Salvador, ACM Neto (UB), não tinha ao seu lado quando decidiu recuar.
“O Grupo é grande e forte, com todos unidos venceremos as eleições. A política, é aquele ditado antigo e mais que usado, “muda muito”; todo mundo esperava que o Wagner fosse candidato, mas não posso dizer quais razões para ele não concorrer, o que posso dizer é que é natural que tenhamos algumas surpresas. Todo mundo esperava que fosse ele, mas o grupo estando unido, com todos os partidos, é forte. Nós temos a maior parte dos prefeitos, juntando PP, PSD, PSB temos mais de 300. Com todos unidos, acredito que vamos ficar, temos tudo para ganhar”.
Menezes, que falou com OFF News da Georgia, país que faz fronteira com a Rússia, disse não crê que o script desenhado em 2022 tenha pontos de contato com o de 2018.
“É muito diferente, ACM Neto só tinha o nome dele quando resolveu que não seria candidato, o grupo ficou sem candidato nenhum, aí colocaram Zé Ronaldo, que não tinha a estrutura eleitoral que um Otto Alencar tem, que é o político mais conhecido da Bahia e está no cenário há muitos anos. Estou chegando segunda-feira (7) para me inteirar, apesar de estar ligado pela internet, esses dias não conversei com Otto, Wagner, para saber de fato o que está acontecendo. Antes deu sair tinha um pouco rumor sobre mudança na cabeça de chapa, mas o senador que é presidente do PSD sempre disse que a candidatura era de Wagner e que ele é candidato ao Senado, mas pontuou que se Wagner não fosse, se o grupo resolvesse que ele deveria ser o candidato, ele poderia disputar”, pontuou Menezes.
Desistência
Para Cláudio Cajado, deputado federal do PP e presidente nacional da sigla, a desistência de Wagner causa impacto no Partido dos Trabalhadores e não no grupo.
“Eu já declarei minha opinião, do lado do PP a gente não tem problema se o candidato for Otto ou Wagner, a gente fica satisfeito com Leão assumindo e nós indicando o vice, assim seremos robustecidos na proporcional. Agora, é óbvio que o fato de Rui Costa querer ser candidato a senador mudou o jogo. Só que a gente não pode desconsiderar o peso de Rui Costa como candidato a senador. O impacto da saída de Wagner não é no grupo, é no PT, ele que tem a cabeça de chapa. Mas é do jogo, eu vi declarações de vários membros do PT dizendo que o PT tem que começar a apoiar. Mas acredito que ao longo mês de março nós vamos aprofundando o diálogo e chagar a um consenso”, sinalizou Cajado.
O pepista aponta que reuniões ocorridas em 2021 já poderiam ter criado um cenário sem Wagner, permitindo assim uma organização maior: “Esse debate começou tarde. Essas conversas poderia ter ocorrido no final de novembro para o início de dezembro, foi um dialogo que começou muito tarde, perdeu-se muito tempo. Eu sempre provocando: “e aí gente, como fica a chapa? Quando vamos começar dialogar?” E ficou em aberto essa composição da chapa. Agora, diante dessas circunstâncias novas, temos que evoluir rapidamente as conversas no mês de março e chegar a um consenso. Esse grupo tem resultados bons nas gestões à frente do governo na Bahia, o povo baiano está extremamente satisfeito. É um trabalho desenvolvido não apenas pelo PT, mas pelo conjunto de forças: PSD, PP, PCdoB etc”.
Então aliado de ACM Neto (UB), Cajado explicou que o cenário que provocou o movimento de ACM Neto era bastante diferente do de agora, promovido por Jaques Wagner (PT).
“Olha, com o que ocorreu lá atrás, não tem comparação. Neto sabia que não tinha chance de vencer, que se saísse para disputar – como saiu para prefeito anteriormente e perdeu na 1º que concorreu, ganhando na segunda -. Poderia ter saído para marcar posição e quem sabe vencer na próxima. Agora, expectativa de vitória não existia. Lá só existia um candidato que era ele. Houve erro estratégico pois não havia nenhuma possibilidade de um plano B, como temos aqui com Otto, Leão e etc, várias opções; lá só tinha Neto. Quando ele desistiu e como não tinha outro nome, o grupo ficou a ver navios em uma situação muito ruim. Foi por isso que resolvi sair do grupo”, explicou Cláudio Cajado.
Desorganização
O deputado federal Daniel Almeida (PCdoB) aponta que o recuo do senador do PT provoca uma desorganização no grupo, mas avalia que não chega a comprometer à sucessão da aliança para disputa à manutenção do controle do estado.
“Olha, eu acho que o esforço deve ser para chegarmos a um consenso. O Grupo ganhou quatro eleições conseguindo unidade para fazer essas disputas. Líderes temos, nomes temos, agora, nenhum individualmente está acima do grupo, o esforço é esse, coletivo. Independente de quem seja, com o grupo unido, temos todas condições ganhar. Sem dúvida essa saída causa um impacto, nós e outras forças levávamos em conta a candidatura de Jaques Wagner, colocávamos como algo consolidado e o fato dele desistir, anunciar que não será candidato, isso dá uma desarrumação, mas não acho que seja o suficiente para comprometer o projeto, mas é claro que cria mais dificuldade e vamos gastar mais energia na arrumação do cenário daqui para frente”, apontou Almeida.
O parlamentar baiano cobrou mais uma vez a reunião do Conselho Político, que segundo ele será peça fundamental para construção da chapa. Ele aponta que um dos impactos com o recuo de Wagner será sentido logo no mês de março, quando abre-se o período para trocas partidárias, a chamada janela eleitoral.
“É realmente muito preocupante, a janela partidária começa hoje e grupo se estivesse arrumando poderia atrair filiados. Se não fizermos essa arrumação logo, poderemos perder essa oportunidade, e com a chapa em aberta, isso gera uma insegurança para o pessoa se filiar um ou outro partido. Eu acho que temos tempo e acredito na arrumação, o nosso grupo arrumado é muito forte, temos todas as chances de ganhar, é nisso que acredito. Agora, um problema que precisamos resolver de imediato é o reunir o Conselho Político, se há uma lacuna preenchida rapidamente, é essa. Precisamos reunir o Conselho Político para ouvir o coletivo, nos últimos tempos isso tem sido negligenciado, não tem tido o cuidado necessário”, desabafou Daniel Almeida.



