Seção baiana da Associação Nacional de História presta solidariedade para professor da UFBA alvo da Brasil Paralelo

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A Diretoria da ANPUH Brasil e da Seção Bahia emitiram notas de “irrestrita solidariedade” ao professor Carlos Zacarias, alvo de pedido de retratação extrajudicial da produtora Brasil Paralelo.

“O historiador tem sido alvo de ataques por parte de uma produtora, que o notificou extrajudicialmente, sem nenhum fundamento, em uma tentativa de intimidação e cerceamento da crítica através de censura. O canal produz “conteúdo” de história de caráter revisionista e negacionista, o que é inadmissível para quem pesquisa e ensina História como uma ciência humana pautada na ética e na honestidade intelectual e não admite falsificações deliberadas da mesma com fins políticos e ideológicos”, diz ANPUH na nota.

“Nos últimos anos, temos visto repetidos ataques à história científica e a seus profissionais. Indivíduos e grupos procuram destruir a confiança na ciência em geral, e na história em particular, com o objetivo de alcançar interesses comerciais, ideológicos e partidários. Para vender livros, enriquecer com propagandas em plataformas digitais ou promover projetos político-partidários de minorias radicais e antidemocráticas, estabeleceu-se uma espécie de vale-tudo alavancado pela desinformação. Foi o que vimos na última semana na tentativa de intimidação movida contra o professor Carlos Zacarias Figueirôa de Sena Júnior, da UFBA”, sinaliza ANPUH Brasil.

O imbróglio envolvendo a empresa e o professor da UFBA teve início após uma postagem do professor em uma de suas redes sociais, no dia 11 de julho.

Naquele dia, após tomar conhecimento a Brasil Paralelo estava entre o conteúdo indicado no material didático da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, destinado ao ensino online para estudantes da escola pública, o historiador escreveu:

“Soube agora que o caderno de apoio para o ensino de História da Secretaria de Educação do Estado da Bahia tem a indicação de um vídeo da produtora do Brasil Paralelo. Para quem não sabe, essa produtora é olavista e, pelo que dizem, vem sendo vitaminada por verbas do governo Bolsonaro através da compra de séries para o MEC. Para quem não sabe o governo da Bahia é comandado pelo PT desde 2006”, sinalizou o professores, que seguiu explicando que “o Brasil Paralelo não é uma produtora qualquer, mas um canal que produz “conteúdo” de história de caráter revisionista/negacionista. Seu filme mais importante, Brasil, entre armas e livros, sobre o golpe de 1964, é uma peça de propaganda ideológica anticomunista sem nenhum respaldo científico”.

No final da postagem, ele chamou atenção dos professores de História da Rede Pública estadual, Secretaria de Educação do estado da Bahia e do governador Rui Costa: “negacionismo e falsificação da história é caminho aberto para o fascismo. É preciso rever urgentemente esse material didático.”

A postagem viralizou e servidores da secretaria da Educação do governo Rui Costa (PT) entraram em contato com Zacarias para informar que o conteúdo da produtora seria retirado. No mesmo dia do contato, a Brasil Paralelo já não constava mais entre o conteúdo indicado pela Secretaria de Educação do Estado.

Retratação

O ato chegou ao conhecimento dos proprietários da produtora que entraram em contato com o professor de história na última semana, de forma extra-judicial, pedindo uma retratação pública pelo dano causado: “por entender que a publicação se reveste de linguajar difamatório em relação à empresa Brasil Paralelo”.

A empresa alega na peça que pede à retratação do professor da UFBA em até sete dias que “o sucesso da Brasil Paralelo junto ao público decorre em grande parte da imparcialidade com que examina e analisa os temas que são objetos de seus conteúdos”

Ela alega que o motivo principal da ação é porque o historiador acusa a empresa de ser “Olavista”, a partir da análise de que uma das principais fontes ouvidas nos conteúdos da Brasil Paralelo é o astrólogo Olavo de Carvalho, e de ser “vitaminada por verbas do governo Bolsonaro”, o que é alvo de investigação da CPI da Pandemia.

A notificação extrajudicial é uma tática de intimidação que está sendo usada pelos proprietários da empresa para silenciar os críticos. Segundo Zacarias, antes dele ser notificado, dois orientados seus já haviam sido interpelados pela empresa.

Leia nota da ANPUH na íntegra:

A Diretoria da ANPUH Seção Bahia presta total e irrestrita solidariedade ao professor Carlos Zacarias Figueirôa de Sena Júnior (UFBA). O historiador tem sido alvo de ataques por parte de uma produtora, que o notificou extrajudicialmente, sem nenhum fundamento, em uma tentativa de intimidação e cerceamento da crítica através de censura.


O canal produz “conteúdo” de história de caráter revisionista e negacionista, o que é inadmissível para quem pesquisa e ensina História como uma ciência humana pautada na ética e na honestidade intelectual e não admite falsificações deliberadas da mesma com fins políticos e ideológicos.
O colega historiador teceu pertinentes críticas ao material produzido por essa empresa em sua página pessoal do Facebook depois que um dos vídeos da produtora foi indicado pela Secretaria Estadual de Educação da Bahia (SEC).

A SEC/BA acabou retirando a indicação do material após a postagem. Vale destacar que essa mesma empresa, que produz documentários com viés bolsonarista sobre política, história e atualidades, teve a quebra de seu sigilo bancário requerida pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no início do mês de agosto deste ano pela suspeita de envolvimento em uma rede organizada de desinformação sobre a pandemia.


O conhecimento nos liberta, o sofrimento nos mobiliza e a empatia nos protege! Continuaremos em combate pela verdade histórica e contra todo o revisionismo e negacionismo científico.

Veja nota da ANPUH Brasil:

Há cerca de um ano, foi aprovada pelo Congresso Nacional a regulamentação da profissão de historiador. A lei reconhece que pesquisar, escrever, ensinar e divulgar história exigem a experiência de um profissional com formação de nível superior. A graduação em história passa pela aquisição de um vasto repertório de conhecimentos, desde os mais evidentes, como o estudo das diversas histórias e culturas, até saberes mais especializados que dizem respeito a métodos e teorias específicas que tornam a historiografia um ramo das ciências humanas.

Hoje, o Brasil tem uma comunidade historiadora reconhecida entre as maiores e mais importantes do mundo. A Associação Nacional de História – Anpuh-Brasil, com mais de 6 mil associados e com 60 anos de existência, esteve sempre ao lado da sociedade brasileira na luta por histórias mais qualificadas e complexas. As histórias que interessam às sociedades democráticas são aquelas que ajudam a fortalecer seus valores fundamentais: o respeito à diversidade e às minorias, a garantia da liberdade de pensamento, a pluralidade e autonomia científica, o combate ao obscurantismo e às tendências autoritárias, a solidariedade e a justiça social, dentre outros.

Nos últimos anos, temos visto repetidos ataques à história científica e a seus profissionais. Indivíduos e grupos procuram destruir a confiança na ciência em geral, e na história em particular, com o objetivo de alcançar interesses comerciais, ideológicos e partidários. Para vender livros, enriquecer com propagandas em plataformas digitais ou promover projetos político-partidários de minorias radicais e antidemocráticas, estabeleceu-se uma espécie de vale-tudo alavancado pela desinformação. Foi o que vimos na última semana na tentativa de intimidação movida contra o professor Carlos Zacarias Figueirôa de Sena Júnior, da UFBA.

O ódio à democracia e à pluralidade de histórias é capturado por uma máquina comercial que reproduz ressentimentos e ignorância. O fato de terem escolhido o professor e a professora de história como seus inimigos mostra apenas que a escola e a ciência autônoma são ainda as grandes guardiãs da democracia. Não temos outro caminho para resguardar o conhecimento que emancipa senão aquele que garante a plena liberdade a seus praticantes.

Ao lado de todos os profissionais de história no Brasil, a Anpuh-Brasil reafirma seu compromisso com a defesa de um conhecimento histórico produzido por uma ciência socialmente referenciada. Aos vendedores de mentiras que prometem um acesso mágico e fácil à “verdade da história”, a resposta só pode ser o reforço de nosso compromisso profissional com um saber plural, complexo, mediado pelo diálogo eticamente orientado.

Por fim, a atual diretoria da Anpuh-Brasil, desde sua posse em fins de julho, trabalha em diversas frentes na construção de medidas concretas na defesa da história profissional, de seus trabalhadores e da democracia brasileira. Para citar apenas algumas:

  1. firmamos parceria com o recém-lançado Observatório do Negacionismo;
  2. estabelecemos conversas institucionais com a International Network of Concerned Historians;
  3. estabelecemos grupo de trabalho para propor a criação de um certificado de boas práticas profissionais;
  4. iniciamos conversas visando à criação de uma frente parlamentar pluripartidária antinegacionista;
  5. iniciamos um amplo projeto de reestruturação das redes sociais da Anpuh-Brasil com o objetivo de reforçar seu alcance em ações de divulgação científica e história pública;

Estas e muitas outras ações só terão eficácia com o engajamento ativo da comunidade historiadora em seus diversos espaços institucionais. Precisamos estar unidos na defesa, em especial, da história ensinada na educação básica. Nossas professoras e nossos professores estão na linha de frente da luta contra os obscurantistas. Apesar dos ataques, são eles que, há anos, desenvolvem respostas e projetos, que precisam ser conhecidos e divulgados, para uma história plural e democrática. Fortalecer a ANPUH-Brasil, associando-se e participando ativamente de suas ações, é a melhor resposta que podemos dar neste momento.

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