O doutor em História e professor da UFBA, especialista em história política, Carlos Zacarias, foi alvo de um pedido de retratação por parte da empresa Brasil Paralelo Entretenimento e Educação S.A, que se define como difusores do “conhecimentos que você não encontra nas melhores universidades do país; uma experiência única de educação e alta cultura”.

CPI

Alvo da CPI da Pandemia, a Brasil Paralelo teve o sigilo telefônico e telemático quebrado e mantido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, após a empresa acionar o STF alegando ação arbitrária da comissão que investiga as ações e omissões do Governo Federal na condução da pandemia.

Ao avaliar o pedido da Brasil Paralelo Entretenimento e Educação, Mendes apontou que uma das linhas de investigação da CPI mira a “correlação entre as ações do Governo Federal no enfrentamento da pandemia e a disseminação de notícias falsas durante o período”, e, nesse âmbito é pertinente a quebra de sigilo de pessoas ou entidades potencialmente envolvidas na disseminação de desinformação sobre a covid-19.

O requerimento da CPI da Covid sobre a quebra de sigilo da Brasil Paralelo Entretenimento e Educação alega que o grupo “influenciou fortemente na radicalização política adotada pelo Palácio do Planalto, interferindo e influenciando ações políticas por meio da divulgação de informações falsas em redes sociais”.

Críticas

O imbróglio envolvendo a empresa e o professor da UFBA teve início após uma postagem do professor em uma de suas redes sociais, no dia 11 de julho.

Naquele dia, após tomar conhecimento a Brasil Paralelo estava entre o conteúdo indicado no material didático da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, destinado ao ensino online para estudantes da escola pública, o historiador escreveu:

“Soube agora que o caderno de apoio para o ensino de História da Secretaria de Educação do Estado da Bahia tem a indicação de um vídeo da produtora do Brasil Paralelo. Para quem não sabe, essa produtora é olavista e, pelo que dizem, vem sendo vitaminada por verbas do governo Bolsonaro através da compra de séries para o MEC. Para quem não sabe o governo da Bahia é comandado pelo PT desde 2006”, sinalizou o professores, que seguiu explicando que “o Brasil Paralelo não é uma produtora qualquer, mas um canal que produz “conteúdo” de história de caráter revisionista/negacionista. Seu filme mais importante, Brasil, entre armas e livros, sobre o golpe de 1964, é uma peça de propaganda ideológica anticomunista sem nenhum respaldo científico”.

No final da postagem, ele chamou atenção dos professores de História da Rede Pública estadual, Secretaria de Educação do estado da Bahia e do governador Rui Costa: “negacionismo e falsificação da história é caminho aberto para o fascismo. É preciso rever urgentemente esse material didático.”

A postagem viralizou e servidores da secretaria da Educação do governo Rui Costa (PT) entraram em contato com Zacarias para informar que o conteúdo da produtora seria retirado. No mesmo dia do contato, a Brasil Paralelo já não constava mais entre o conteúdo indicado pela Secretaria de Educação do Estado.

Retratação

O ato chegou ao conhecimento dos proprietários da produtora que entraram em contato com o professor de história na última semana, de forma extra-judicial, pedindo uma retratação pública pelo dano causado: “por entender que a publicação se reveste de linguajar difamatório em relação à empresa Brasil Paralelo”.

A empresa alega na peça que pede à retratação do professor da UFBA em até sete dias que “o sucesso da Brasil Paralelo junto ao público decorre em grande parte da imparcialidade com que examina e analisa os temas que são objetos de seus conteúdos”

Ela alega que o motivo principal da ação é porque o historiador acusa a empresa de ser “Olavista”, a partir da análise de que uma das principais fontes ouvidas nos conteúdos da Brasil Paralelo é o astrólogo Olavo de Carvalho, e de ser “vitaminada por verbas do governo Bolsonaro”, o que é alvo de investigação da CPI da Pandemia.

A notificação extrajudicial é uma tática de intimidação que está sendo usada pelos proprietários da empresa para silenciar os críticos. Segundo Zacarias, antes dele ser notificado, dois orientados seus já haviam sido interpelados pela empresa.

Tática

“Não sou o primeiro, no meu grupo de pesquisa há dois jovens graduando que receberam notificações extrajudiciais. Uma menina que mora em São Paulo e estuda a Brasil Paralelo no mestrado em universidade do Paraná, a tese dela é sobre isso, e um menino de Bahia, mestrando meu da UFBA, que apesar de não estudar sobre isso, ajuda ela em parcerias, pois suponho que irá querer estudar isso no doutorado”, explicou Carlos Zacarias.

O acadêmico critica o que classifica como um “tipo de ameaça utilizado pela Brasil Paralelo”, que “notifica pedindo retratação já sinalizando que levará as pessoas à justiça”.

“Nós estamos dizendo o que sobre eles? Que são negacionista, revisionista da história, construindo histórias com vieses, antiacadêmico. As pessoas ouvidas, o material feito à margem do conhecimento científico, ouvido pessoas que atacam as universidades; quase todo filme deles têm Olavo de Carvalho, falando, que não é historiador, sequer filósofo, e que fala o que lhe é conveniente”, criticou o doutor em História.

carlos-zacarias
Zacarias disse que notificação da Brasil Paralelo não o intimida, reafirmou o que disse e citou histórico ilibado na UFBA / Foto: Reprodução Youtube

Diz o professor que segue com as críticas: Eles produzem conteúdos completamente alheios ao que se discute dentro da universidade, a ciência constitui alguns consensos, não é que eles sejam inabaláveis, mas para serem derrubados é preciso evidências robustas que os substituam. A Brasil Paralelo faz isso à margem, em paralelo, acusando as universidades de serem dominadas pelo monopólio ideológico, o que é uma grande bobagem”, ressaltou o educador.

O professor universitário promete que não irá se retratar e destaca: “devemos debater o conteúdo do negacionismo, o que dizem e porque influenciam as pessoas, MAS não debater com eles, que é lhes dar um lugar que eles não devem ter”.

“Esse tipo de conteúdo e abordagem só encontram terreno fértil em um momento de crise moral e social que estamos vivendo. É nesse contexto de crise que esses mercadores da mentira, da fake news, ganham espaço, vicejam. “Tentativa de intimidação não vai me atingir, me fazer recuar, já fui processado e sofri ameaças por dar uma disciplina sobre o golpe de 1964. Em minha trajetória de 27 anos como professor, nunca tive um inquérito, uma advertência, nem sequer um  abaixo assinado de estudantes contra mim, sou um professor com uma trajetória ilibada e respeitada. Eu respondi do jeito que devia, com uma nota, contextualizado e reafirmando o que disse. Estou colhendo solidariedade de historiadores e de pessoas de diversos setores do Brasil inteiro”, destacou Zacarias.

guest
1 Comentário
mais antigos
mais recentes Mais votado
Lafayette Luz
Lafayette Luz
4 anos atrás

Todo apoio ao Prof. Zacarias. Com facistas não se debate, pois não são dados a argumentos sérios, nem a debates. Facistas se combate! Estamos juntos!!!