Trezena de Santo Antônio e a tradição junina: o sagrado e profano se entrelaçam

FOTO: José Lopes

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Por: Beatrice Magalhães

Na próxima segunda, 13 de junho, é comemorado o dia de Santo Antônio, que representa aos nordestinos, também, a abertura das celebrações juninas.

Santo Antônio de Pádua foi canonizado pelo Papa Gregório IX em 30 de maio de 1232, apenas onze meses após sua morte, sendo o processo mais rápido da história da Igreja Católica. Também conhecido como “Pai dos pobres” e “Santo casamenteiro”, Antônio possui milhares de devotos no Brasil e em Portugal e é um dos três santos juninos, juntamente a São João e São Pedro.

Homenagem à Santo Antônio // FOTO: Reprodução Pinterest

O período do São João, nomeado em homenagem ao primo de Jesus, se estende por todo mês de junho e é de extrema importância para o nordeste, com grande valor econômico, acadêmico, religioso, cultural e, principalmente, afetivo.

As festas juninas foram criadas na França, no século XII. No dia do solstício de verão, isto é, da transição da primavera para o verão, virava-se a noite celebrando, com comidas típicas, danças tradicionais e rituais, ao redor de uma fogueira. O objetivo era afastar os maus espíritos para que a colheita fosse abundante, sem qualquer relação com a religião cristã. Contudo, com a expansão do cristianismo, esse ritual considerado “pagão” (como eram chamadas as pessoas não convertidas) foi incorporado ao calendário católico, como forma de aproximar as pessoas à doutrina e convertê-las.

Quando essa tradição chegou ao Brasil, através dos colonizadores portugueses, ela se transformou, ganhando traços de religiões de matriz africana e costumes indígenas, ou seja, ocorreu um processo intenso de sincretismo. Com essa fusão de culturas, o teor religioso das celebrações deu lugar a uma concentração e tradição popular.

FOTO: Kid Júnior

Para Tadeu Feitosa, professor de cultura e mídia da Universidade Federal do Ceará, na construção dos símbolos culturais e cotidianos, o sagrado e o profano acabam se entrelaçando. “Por mais que a marca profana das festas e suas ritualidades de prazer – com danças, comidas, brincadeiras – seja maior, inclusive coincidindo no Nordeste com a alegria das colheitas e seus rituais antropológicos de festas, há uma sacralidade que se mistura a isso”, revela.

Em virtude dessa conciliação, a celebração dos santos juninos se perpetua não só entre os devotos da Igreja Católica, mas, sim, em toda a comunidade nordestina mergulhada na cultura das festanças do São João. “As tradições dialogam e necessitam desses diálogos com os tempos atuais. É disso que nascem suas permanências. O que mudam são as roupagens, os adereços, que são repaginadas pelos signos do agora”, completou Tadeu.

A trezena de Santo Antônio perdeu a adesão em várias regiões do Brasil, mas no nordeste a tradição ainda tem peso, exatamente por essa “repaginada” no seu significado. Na Bahia, há forte sincretismo e miscigenação, desse modo, os rituais não poderiam ter se perpetuado, senão pela adaptação aos costumes do estado. Na capital, Salvador, mais propriamente no bairro Santo Antônio Além do Carmo, o período de 1 a 13 de junho continua sendo destinado a orações ao Santo, entretanto, ganhou uma simbologia de celebração ao seu legado e da própria comunidade local.

Procissão por Santo Antônio Além do Carmo // FOTO: Nara Gentil

Nem a pandemia mundial do Corona Vírus foi capaz de comprometer essa tradição. Um costume secular como a trezena precisou se adequar ao período pandêmico, realizando transmissões ao vivo das celebrações. Após dois anos, as comemorações voltaram presencialmente ao bairro que leva o nome do santo.

Os festejos do dia 13, concluindo a trezena, será aberto por uma alvorada e fogos de artifício às 6h. A programação seguirá com várias missas e uma procissão que percorrerá as ruas do Carmo e para finalizar o evento, ocorrerá um show da banda É o Tchan no coreto da praça, entrelaçando entre sagrado e o profano.

Um evento religioso se transformar em uma festa popular é um movimento de proteger a tradição sacra e torná-la acessível e mais humana. Nesse processo, ela ultrapassa a barreira do sagrado e encontra sentimentos profanos e comuns a todos, independente da crença, como nostalgia, alegria, carinho, empatia e afeto.

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