Obstetrícia e UTI Neonatal na Bahia: um retrato da desigualdade entre a capital e o interior

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Por Heraldo Rocha*

A situação da obstetrícia e da assistência neonatal na Bahia revela um dos mais graves problemas estruturais da saúde pública estadual: a profunda desigualdade entre a capital e o interior. Apesar de avanços pontuais e anúncios oficiais de novos investimentos, o que se observa na prática é um sistema sobrecarregado, concentrado e incapaz de atender com equidade gestantes e recém-nascidos, especialmente os de alto risco.

A Bahia é um dos estados com maior número de nascimentos do país e possui uma população majoritariamente dependente do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa realidade exige uma rede obstétrica bem distribuída, integrada e com capacidade resolutiva. No entanto, a concentração dos serviços de média e alta complexidade em Salvador transformou a capital em destino quase obrigatório para gestantes do interior, criando um cenário de superlotação crônica.

Em Salvador, maternidades de referência como Tsylla Balbino, José Maria de Magalhães Netto, Climério de Oliveira, Hospital Geral Roberto Santos e Albert Sabin operam constantemente no limite. A peregrinação de gestantes em busca de vaga, prática que deveria ter sido erradicada há décadas, ainda faz parte da rotina. A situação se agrava quando se trata de leitos de UTI Neonatal, fundamentais para a sobrevivência de prematuros e recém-nascidos graves. Mesmo na capital, a oferta é insuficiente frente à demanda crescente.

No interior do estado, o cenário é ainda mais preocupante. Grande parte dos municípios não dispõe de maternidades com estrutura para atendimento de gestantes de alto risco. A ausência ou escassez de leitos de UTI Neonatal é a regra, não a exceção. Apenas alguns polos regionais, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Juazeiro e Barreiras, contam com serviços mais estruturados, ainda assim insuficientes para cobrir suas macrorregiões.

A consequência direta dessa fragilidade é o aumento do risco materno e neonatal. Transferências longas e tardias, falta de transporte neonatal adequado, partos realizados em unidades sem suporte e demora na regulação de leitos compõem um cenário que contribui para índices de mortalidade evitável. Prematuros extremos e recém-nascidos com intercorrências graves são os mais penalizados por esse modelo concentrador.

Do ponto de vista da gestão pública, a política estadual tem se mostrado reativa, focada no enfrentamento de crises momentâneas, sem um planejamento estruturado de longo prazo. Falta uma regionalização efetiva da assistência obstétrica e neonatal, com a criação de polos de alto risco no interior e expansão permanente de UTIs Neonatais fora da capital. Soma-se a isso a dificuldade de fixação de profissionais especializados, como obstetras, neonatologistas e enfermeiros obstétricos, sobretudo nas regiões mais afastadas.

Enquanto Salvador absorve uma demanda que extrapola sua capacidade, o interior permanece desassistido. Essa equação é insustentável e injusta. Saúde materno-infantil não pode depender de sorte, de distância ou da capacidade de deslocamento de uma gestante em trabalho de parto.

É urgente que o Governo do Estado trate a obstetrícia e a UTI Neonatal como prioridade estratégica, com investimentos planejados, descentralização real dos serviços e fortalecimento da rede regionalizada. Cada leito que falta representa um risco concreto de morte evitável. Cada transferência tardia expõe a fragilidade de um sistema que precisa, com urgência, ser reestruturado.

Garantir parto seguro e cuidado neonatal adequado não é favor, é dever constitucional. A Bahia precisa decidir se continuará empurrando esse problema para a capital ou se, finalmente, enfrentará a desigualdade histórica que marca a assistência obstétrica no estado.

*Heraldo Rocha é médico e ex-parlamentar estadual.

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