O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (19), em Belém (PA), que o avanço das negociações da COP30 o deixou “tão feliz” que ele acredita ser possível convencer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da seriedade da crise climática — apesar do boicote do governo americano à conferência.
“Eu estou tão feliz que um dia haverei de convencer o presidente dos Estados Unidos de que a questão climática é séria e de que o desenvolvimento verde é necessário. E estou tão feliz que eu sonhei um dia até acabar com uma guerra da Rússia e da Ucrânia”, declarou Lula.
Trump, que voltou a retirar os EUA do Acordo de Paris no início de seu atual mandato, não enviou delegação oficial ao evento. Ainda assim, prefeitos e governadores americanos — em sua maioria democratas — estiveram em Belém para acompanhar discussões e participar de painéis.
Negociações intensas em Belém
Lula viajou à capital paraense para tentar destravar pontos centrais da conferência, como o chamado mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis — bandeira da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e que enfrenta resistência de países dependentes da indústria petrolífera.
O presidente defendeu que setores mais poluentes contribuam financeiramente para a transição energética e para o combate ao aquecimento global.
“As empresas petroleiras têm que pagar uma parte disso, as mineradoras têm que pagar uma parte disso, as pessoas que ganham muito dinheiro têm que pagar uma parte disso, porque senão quem vai sofrer é a parte mais pobre do planeta Terra”, afirmou.
Lula voltou a defender um plano global para o fim da exploração de combustíveis fósseis, mas disse que cada país poderá avançar conforme suas condições.
“Ele pode fazer dentro do seu tempo, dentro das suas possibilidades, mas nós estamos falando sério: é preciso que a gente diminua a emissão de gás de efeito estufa. Se o combustível fóssil é uma coisa que emite muitos gases, nós precisamos começar a pensar como viver sem combustível fóssil”, disse, em resposta a países que temem assumir compromissos obrigatórios sem contrapartidas.
Protestos na COP e crítica à “liturgia” de cúpulas globais
As manifestações de movimentos sociais têm marcado a COP30 — a primeira em três anos realizada em um país democrático, em contraste com as edições anteriores na África e no Oriente Médio. No início da conferência, manifestantes tentaram acessar áreas restritas e foram retirados pela segurança da ONU, que criticou o governo brasileiro por falhas no controle do público.
Lula, porém, defendeu o direito à mobilização e minimizou incidentes.
“Eventos não podem ser litúrgicos, em que só participa pouca gente e, muitas vezes, em lugar cercado de polícia e arame farpado. Os líderes estão protegidos é porque sabem que não estão fazendo a coisa certa. A marcha do povo foi extraordinariamente bonita e ordeira”, declarou.
Ele também destacou a necessidade de avançar em pautas de gênero e elogiou o papel da primeira-dama, Janja, que tem participado de painéis sobre o tema.
Agenda de reuniões e posições do Brasil
Ao longo do dia, o presidente se reuniu com representantes de diversos países — África, Egito, Arábia Saudita, China, Índia, Venezuela, União Europeia, Alemanha, Portugal, Jamaica e Ilhas Maldivas, entre outros — além de lideranças da sociedade civil, empresários, governadores e o secretário-geral da ONU, António Guterres.
Lula defendeu que o Brasil quer trabalhar pelo consenso: “Não queremos impor nada. Queremos apenas dizer: é possível? E, se é possível, vamos tentar construir juntos. O Brasil quer mostrar que é possível.”
Nos bastidores, ele também incentivou novas contribuições ao Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), que recebeu aporte de 1 bilhão de euros da Alemanha nesta quarta-feira.
Apesar do tom otimista do presidente, lideranças ambientais demonstraram preocupação. A diretora do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, alertou que as negociações ainda enfrentam obstáculos.
“O presidente Lula falou como se a COP já tivesse terminado, mas ela não terminou. Precisamos ver planos efetivos de superação dos fósseis e de combate ao desmatamento no texto final. Só aí teremos motivos para celebrar”, afirmou.
Mesmo assim, Lula insistiu que a COP30 em Belém demonstrou ao mundo a importância da Amazônia: “Fica muito importante para nós colocar a Amazônia do jeito que ela é na cabeça dos povos do mundo inteiro. Esta COP foi feita em Belém porque todo mundo tem seu papel na sociedade: mulher, homem, pessoa negra.”



