A semana passada terminou com duas votações que aumentaram a distância entre o Parlamento e a sociedade. A Câmara aprovou a PEC da Blindagem, que amplia a imunidade de deputados e senadores e dificulta investigações, e avançou a PEC da Anistia feita sob medida para aliviar ou até perdoar condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo Jair Bolsonaro.
As duas propostas revelam um Congresso voltado para a própria sobrevivência institucional, preocupado em proteger os seus, mesmo quando a opinião pública rejeita privilégios e condena qualquer tentativa de anistia a quem atacou a democracia. Em vez de responder à desconfiança crescente, os deputados decidiram reforçá-la sem olhar para trás.
A resposta veio rápido. Hoje as ruas de várias cidades foram tomadas por manifestações contra a blindagem e a anistia. Foi uma das maiores mobilizações da esquerda nesta década com sindicatos, movimentos sociais, artistas e partidos unidos em torno da defesa das instituições e contra os privilégios parlamentares.
Esse movimento tem efeito político estratégico imediato. Ao se colocar contra as propostas mais impopulares do Congresso, Lula encontra uma oportunidade rara de dialogar de novo não só com a esquerda, mas também com o eleitorado de centro que na média não confia no Parlamento. Algo semelhante aconteceu durante a crise do tarifaço, quando o presidente se posicionou em defesa da soberania nacional e conseguiu ampliar apoios.
A tendência é que Lula volte a surfar nessa agenda. De um lado, ele se reafirma como defensor da democracia e da legalidade. De outro, a oposição se vê obrigada a carregar propostas que fortalecem a rejeição social. No jogo político, cada movimento importa. E o deste domingo mostrou que a rua ainda é capaz de influenciar o ritmo da política brasileira. Mais que isso: o retorno vigoroso da esquerda para as ruas mede forças com a direita e deixa o centrão embaraçado em torno da tática de “cooptar” os eleitores bolsonaristas com a pauta da anistia. Vai ter que calcular e precificar melhor os riscos.
Cláudio André de Souza
Cientista Político e professor da UNILAB.
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