Por: Beatrice Magalhães
É extremamente curioso analisar o paralelo entre os movimentos de “corpos positivos” e o número de cirurgias plásticas realizadas anualmente. A crescente das mobilizações a favor da quebra dos padrões estéticos excludentes se contradiz com as estatísticas de procedimentos estéticos em todo o mundo.
De acordo com pesquisa realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil encontra-se atualmente em primeiro lugar em número de procedimentos estéticos cirúrgicos no mundo, ficando na frente dos Estados Unidos e México com aproximadamente 1,5 milhões de operações por ano. Apenas do ano de 2020 para 2021 houve um crescimento de 50% no número dessas cirurgias.
Discute-se muito sobre as motivações para tal intensificação. O principal estímulo está nas redes sociais, justamente o espaço onde passamos grande parte do nosso tempo. O ambiente virtual instiga uma busca incessante pela “perfeição”, seja ela no âmbito das vivências pessoais, profissionais, a estética ou qualquer coisa que esteja exposta ao público, gerando uma insatisfação com a própria imagem.

Segundo o psicólogo Michel da Matta Simões, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, muito disso trata-se de demandas sociais “que exigem dessas pessoas mais do que elas podem ou se sentem capazes de oferecer”. A pressão estética produz “dificuldades em se sentir capaz ou insuficiente para lidar com o mundo, a sociedade e a realidade de uma forma geral”.
Esse descontentamento atinge grande parte dos usuários, desde os influenciadores, que vivem de compartilhar uma vida ideal, até os seguidores “comuns”. Nas últimas semanas a polêmica envolvendo a influenciadora e humorista Gessica Kayane, conhecida como Gkay, e o a quantidade de procedimentos estéticos realizados por ela movimentou as redes sociais. Os internautas comentaram o quanto a humorista modificou sua aparência e como teria “ultrapassado os limites”, usando adjetivos como “monstro” e “E.T”. Em resposta às críticas, ela comentou “Deixa eu ser feia em paz”. Gkay já fez diversas cirurgias plásticas e outros procedimentos não invasivos, como botox e harmonização facial.

Não há inconveniente algum na pessoa, de modo consciente, modificar sua feição e seu corpo por meio de operações. É uma escolha de gosto pessoal. O grande problema encontra-se na banalização das cirurgias plásticas, isto é, a divulgação e até mesmo recomendação, de forma direta ou indireta, desses procedimentos nas redes sociais. É um movimento extremamente irresponsável, pois se discute sobre intervenções invasivas e com consequências reais à saúde do paciente como se fosse algo simples, comparável a trocar de roupa.
Em 2021, veio a público o caso da jovem Liliane Amorim, que passou por um procedimento estético, o qual infelizmente causou sua morte aos 26 anos. A influenciadora digital teve graves complicações devido a uma lipoaspiração e faleceu, deixando um marido e um filho de seis anos de idade. Outra personalidade da internet, Thaynara OG, abalada pela situação, compartilhou sua experiência com a técnica Lipo Lad, a mesma feita por Liliane, e como a operação também teve consequências severas à sua saúde.
“Sabe quando você começa a ver muita gente fazendo a mesma coisa e você fica ‘nossa, eu acho que preciso disso, olha esse antes e depois, é muito fácil, como arrancar um dente’?”, comentou Thaynara em seu relato no Instagram. A influenciadora revelou que se questionava durante seu período na UTI “Meu Deus, por que fiz isso comigo?”. Emocionada ela completou, “poderia ter partido por muito pouco”.

Ainda na mesma pesquisa feita pela ISAPS E SBCP, foi divulgado um crescimento de 140% no número de cirurgias plásticas em adolescentes de 13 a 18 anos no Brasil. O aumento de intervenções estéticas em pessoas tão jovens tem relação direta com o ambiente das redes sociais, já que elas compõem grande parte do público dos influenciadores que pregam a vida perfeita.
É extremamente importante ir contra ao movimento de banalização de procedimentos invasivos e complicados. O nosso corpo não é como peças de roupas que podem ser rotineiramente trocadas, é necessário seriedade ao tratar de cirurgias estéticas. Elas são capazes de reerguer autoestimas, mas também de gerar grandes arrependimentos se não forem feitas de modo responsável.
Assim, é interessante buscar por pessoas e espaços que apoiem o movimento dos corpos livres e de forma positiva antes de tomar uma decisão. Não é saudável apenas acompanhar aparências “perfeitas” e fechar os olhos para corpos reais, felizes e tão bonitos quanto qualquer outro. A luta pelo amor próprio é árdua e todo passo na trajetória para a aceitação deve ser bem pensado.



