Por: Beatrice Magalhães
A grande polêmica do momento é o julgamento de Amber Heard e Johnny Depp. A comunidade virtual acompanhou intensamente o desdobramento do caso por meses, que se iniciou dia 11 de abril e foi finalizado nesta quarta-feira (01), com a condenação de ambos por difamação da imagem um do outro.
O casal teve um relacionamento bastante conturbado. Começaram a namorar entre 2011 e 2012, quando atuaram juntos em “Diário de um jornalista bêbado”. Em 2015 casaram e, em um ano, logo se separaram. Em 2016, Amber apareceu em um tribunal na cidade de Los Angeles pedindo o divórcio e uma medida protetiva do seu então marido. Com machucados na bochecha, afirmou ter sido atacada por Johnny, que teria jogado um celular com “força extrema” em seu rosto.
“Abuso emocional, verbal e físico excessivo, agressões raivosas, hostis, humilhantes e ameaçadoras” foi a maneira que a atriz descreveu seu relacionamento com Depp no documento judicial. Lhe foi dada a medida protetiva, porém durou poucas horas, já que o casal fez uma declaração conjunta que tinham resolvido a situação. Apenas em 2017 foi oficializado o divórcio.

No ano de 2018, Heard deu uma entrevista para um artigo de opinião do The Washington Post em que revelava ser “uma figura pública que representa o abuso doméstico”. Em nenhum momento foi mencionado o nome de seu ex-marido, mas, o entendimento do público geral foi que se tratava de seu relacionamento com Johnny Depp, o que afetou, diretamente, na carreira do ator.
A partir desse artigo, Depp acusou Amber de difamação. Sua equipe judicial afirma que o relato da ex-esposa é falso e abalou “incalculavelmente” a reputação do ator, pedindo como retratação U$ 50 milhões. Diante disso, Heard realizou uma contra-acusação, também de difamação, por Johnny ter a chamado de mentirosa.
Durante o processo, muitos casos conturbados da história do casal foram levados à análise.

Em mensagens de 2013 trocadas entre Johnny Depp e o ator Paul Bettany, ele fala sobre Amber de modo violento, “Vamos queimá-la”, “Vamos afogá-la antes de queimá-la para ter certeza que está morta”, completou. O ator disse estar “envergonhado” por ter enviado essas mensagens e que não passavam de uma “tentativa de humor”.
Heard afirma que, quando sob efeito de álcool e drogas, seu ex-marido se tornava uma versão volátil e violenta. Contudo, Depp disse que manteve-se sóbrio durante a maior parte do relacionamento e que o relato é “simplesmente falso”. “Nunca bati na senhorita Heard, nem nunca bati em nenhuma mulher na minha vida”, afirma Johnny e completa dizendo que Amber que teria, na realidade, abusado dele. “Podia começar com um tapa, com um empurrão. Ela precisa de conflito, precisa de violência”.

Seus advogados disseram que Amber também bebia e às vezes usava drogas. Ou seja, muitas das falas do casal são conflitantes.
Quando se trata de uma viagem à Austrália, no período de gravações de Piratas do Caribe, cada um dos dois tem uma versão sobre os acontecimentos.
Durante uma briga do casal, a atriz teria jogado uma garrafa de vodka em direção a Depp e cortado a ponta do dedo anelar, de acordo com a versão do ator. Em seguida, ele diz ter escrito um recado a então esposa na parede com o sangue da ferida. “Não sei como é ter um colapso nervoso, mas é o mais próximo que já cheguei disso”, comentou.
Na versão de Amber, na mesma noite Johnny a abusou sexualmente utilizando da garrafa de vodka mencionada. Sua equipe judicial completou dizendo que o argumento do corte no dedo é inconsistente, já que, se a agressão tivesse realmente acontecido, ele não teria mais a unha.

Dentre tantos depoimentos e polêmicas do caso de Amber Heard e Johnny Depp, as pessoas decidiram seus lados e defenderam veemente a vítima de cada ponto de vista, antes mesmo do veredito ser liberado. Além disso, o público está analisando e opinando sobre a condenação como se fosse a cerca dos relatos de agressões, mas, na verdade, refere-se apenas às acusações difamação, ou seja, do que expuseram à mídia um sobre o outro.
Os comentários acerca do julgamento tratam, majoritariamente, a atriz como culpada, usando adjetivos como “sociopata” e “mentirosa”. De acordo com os relatos, Amber aparenta ser uma pessoa emocionalmente instável e com comportamento violento. Entretanto, o endeusamento da figura de Depp é um movimento complicado.
Laurel Anderson, ex-conselheira matrimonial e psicóloga clínica que participou do processo, descreveu o relacionamento como uma situação de “abuso mútuo”. Desse modo, o binarismo das posições de “mocinho” e “vilão” não cabem ao caso.
O mais problemático envolvendo a polêmica trata-se da associação das atitudes controversas de Amber com o feminismo. Comentários como “Johnny Depp destruiu o feminismo” e “Derrota de Amber significa a derrota do feminismo” afetam toda a comunidade que luta pelo direito das mulheres. “A reação vista nas redes sociais é um tapa na cara de todas as mulheres sobreviventes de violência doméstica”, afirma Tahawa Harris, líder de grupo de apoio à sobreviventes na Louisiana.
Tudo isso demonstra como a repercussão do caso não se refere às figuras de Depp e Heard, mas sim de um sintoma do momento cultural que vivemos. Invalidar e humilhar algumas narrativas e enaltecer outras é uma prática comum ao universo digital e só reforça a tão criticada e odiada “cultura do cancelamento”. “Talvez seja fácil de esquecer, mas eu sou um ser humano”, reforçou Amber.
Quando começarmos a tratar todas as pessoas como seres humanos, que erram e acertam, falam mentiras e verdades, as vezes são vítimas, as vezes culpados, assim como acontece na história de Amber Heard e Johnny Depp, a nossa “guerra” cultural e humanitária talvez chegue ao fim.



