No 8 de Março, data histórica de luta das mulheres trabalhadoras, centenas de pessoas caminham pelas ruas de Salvador.
A manifestação convocada por vários coletivos feministas e partidos políticos de esquerda saiu da Praça do Campo em direção à Praça da Piedade e tem como pautas centrais a luta por empregos, direitos e contra a violência machista. A cosigna “Fora Bolsonaro, Mourão e Damares” está presente em faixas, cartazes, panfletos e adesivos distribuídos aos participantes.
“No Brasil, os motivos para lutar não são poucos e não começaram agora, mas se aprofundaram muito nos últimos anos, com a combinação da crise econômica, pandemia e a política genocida do governo Bolsonaro”, diz Lúcia Martins, integrante do Movimento Mulheres em Luta (MML), ligado à Central Sindical e Popular (CSP) – Conlutas.
“O desemprego, a miséria, as tarefas de cuidados e a violência contra as mulheres se intensificaram, com mais efeitos sobre as mulheres negras. Durante a pandemia, 54% dos empregos perdidos, no mundo, foram de mulheres. No Brasil, segundo dados levantados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), no primeiro ano de pandemia, 480,3 mil vagas de empregos formais foram fechadas em 2020, sendo que 96,4% dessas vagas eram ocupadas por mulheres”, completa Lúcia Martins.
Fernanda Rosa, diretora do Sindjufe-BA (Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário na Bahia), ressalta que com o isolamento social, necessário para preservar vidas, as mulheres ficaram ainda mais expostas à violência doméstica, aos abusos sexuais e feminicídios. “Entre março e abril de 2020 foi registrada uma denúncia de agressão, por minuto, e o índice de feminicídio subiu 22%. As adolescentes e jovens negras têm três vezes mais chances de sofrer múltiplas violências e 66% das vítimas de feminicídio são as mulheres negras”, ressalta a dirigente do Sindjufe-BA.
Em discurso no carro de som, a jovem universitária Milena Oliveira, da Secretaria de Mulheres do PSTU Bahia, afirmou que diante a esse cenário de crise econômica e aumento do feminicídio não tem outra saída às mulheres que ir à luta. “Nesse cenário de barbárie, não temos alternativa para o dia 8 de Março, senão voltar às ruas para demonstrar todo nosso repúdio a esse governo que, junto com figuras como a Ministra Damares Alves, reproduz as ideologias machistas mais conservadoras, não investe em políticas públicas capazes de responder às nossas demandas”, enfatizou.
Ainda em seu discurso, a militante do PSTU traçou críticas ao governo da Bahia e disse que os atos do 8 de Março não devem ter o caráter de palanque eleitoral. “Aqui na Bahia sofremos também com a falta de políticas públicas do governo de Rui Costa (PT). Mesmo sendo uma manifestação unitária, não podemos deixar de tecer nossas críticas e diferenças. Não podemos cometer o erro de esquecer os ataques de governos passados ou nos silenciar frente aos erros de governos ditos de esquerda. Não contem com nós para isso”, disse.
“Nós não aceitamos que os atos do 8 de Março tenham o caráter de palanque eleitoral, ao contrário, devem expressar a independência classista das mulheres e a disposição de enfrentar todos os governos que queiram nos oprimir e explorar. A unidade necessária é para lutar contra o machismo, o racismo, a LGBTfobia, a xenofobia, o capitalismo e todas suas mazelas. Portanto, não basta trocar, nas eleições, Bolsonaro por outro gerente deste sistema. Precisamos avançar na consciência e na luta da nossa classe, por uma sociedade livre de toda opressão e exploração”, concluiu a representante da Secretaria de Mulheres do PSTU Bahia.
Sobre o 8 de Março
Uma das versões mais difundidas sobre o 8 de março é a de que a data foi estabelecida em homenagem às operárias têxteis mortas por um incêndio provocado pelo patrão em represália à greve que realizavam, no 8 de março de 1857, nos EUA. Pesquisas recentes questionam a existência de tal greve, e atribuem as origens ao contexto do início do século 20 e da Primeira Guerra Mundial, nos quais se destacaram as lutas das operárias por salários dignos, redução da jornada e melhores condições de trabalho, e pelo direito das mulheres ao voto e à igualdade. Se referem a uma passeata de 15 mil mulheres nos EUA, em 1908, e a um grande protesto pelo direito ao voto, em 1909.
Neste período, as lutas das mulheres já atingiam um patamar internacional, com relativa integração nos Estados Unidos e na Europa. A partir daí, foi ganhando corpo a ideia de um Dia Internacional da Mulher. Em 1910, a data foi estabelecida na Conferência Internacional de Mulheres, coordenada pela Segunda Internacional, e celebrada nos anos seguintes, mas as datas variavam em cada país.
No dia 8 de março de 1917, (23 de fevereiro, pelo calendário russo), as operárias têxteis, revoltadas pela fome e pela guerra, foram o motor das greves que desencadearam a Revolução de Fevereiro e o fim do czarismo. O evento foi o estopim do desenvolvimento da Revolução Russa, naquele ano.
Assim, o dia “8” foi estabelecido oficialmente a partir da Conferência Internacional de Mulheres Comunistas, em 1921, em homenagem às mulheres russas, e desde então é comemorado em todo o mundo. É essa história de lutas que o dia “8” resgata. Essa é nossa tradição. Viva as mulheres trabalhadoras!



