O doutor em História e professor da UFBA, especialista em história política, Carlos Zacarias, avalia que para entender a criação da União Brasil, é preciso entender o contexto em que nasce o novo partido.
“Apesar da euforia, aparente ao menos, dos líderes das duas legendas que vão se fundir, o PSL e o DEM, o fato de deste partido surgir, inclusive oriundo daquele que elegeu o Presidente da República, que não está mais no partido que o elegeu, o PSL, também fruto do desgaste da própria direita e da extrema-direita; no caso da extrema-direita há um desgaste provocado em função do que representa o bolsonarismo, que vem se desidratando e se limitando cada vez mais ao próprio presidente e os seus aliados mais próximos, e o desgaste da direita tradicional, que não conseguiu se localizar”, sinaliza Zacarias.
O especialista lembra que o histórico do crescimento do PSL nas eleições de 2018 esteve proporcionalmente ligado ao fato do presidente Jair Bolsonaro estar concorrendo no pleito por ele. Ele acredita que assim que o presidente decidir por qual partido tentará à reeleição, é possível que haja uma debandada de parlamentares aliados na próxima janela partidária:
“A aposta é alta. Em princípio a celebração parece coerente com os números que essa legenda vai ter; estamos falando de um partido com 54 deputados e outro com 28 parlamentares, então, em tese, seria a maior legenda do Congresso; mas a aposta é alta porque nós estamos falando de um partido que foi até ontem era um partido nanico, que é o PSL, que circunstancialmente elegeu a maior bancada em função da ascensão de Bolsonaro e do bolsona ismo, e que não está mais dentro desse partido mas que permanecem influenciando diversos parlamentares, dirigentes em vários estados, o bolsonarismo. Então esse partido que até ontem era nanico e que hoje é o partido com maior número de deputados pode perder esses parlamentares amanhã, mesmo que estejam na União Brasil, em função de que Bolsonaro pode fazer uma escolha que certamente não vai ser pela União Brasil”.

Carlos Zacarias avalia que é uma aposta sobretudo para o Democratas, que mostrou resiliência durante os governo do PT, cresceu no do MDB e do PSL, e que agora tem um futuro incerto ao se fundir.
“A aposta é alta sobretudo para o DEM, que mostrou muita resiliência nos governos do PT, porque foi um dos poucos partidos que, se a gente pode dizer assim, manteve coerência ideológica e que não transitou para a base do PT, como tantos outros partidos fizeram. O DEM sofreu muitas perdas mas o sobreviveu aos mandatos do PT. Conseguiu se recuperar de muitas perdas em períodos recentes, especialmente durante os mandatos petistas, é o DEM se recupera, e essa resiliência que de algum modo tinha consolidado este partido com perfil ideológico de direita, é agora é rifado, é apostado nessa aliança com o PSL, que amanhã pode redundar num fracasso, não quer dizer que vem a ser um fracasso, mas pode redundar no fracasso em função de que o bolsonarismo se sustenta com base na agitação, na mobilização, e que é algo que sem isso vai certamente esvaziar a persona pública de diversos deputados que foram foram eleitos pelo bolsonarismo e que podem não se sustentar para próxima eleição”, destaca o historiador.
Quantidade
O especialista em história política aponta que o número grande de parlamentares hoje não tende a refletir o número que estará na União Brasil até o pleito de 2022:
“Não necessariamente a quantidade se transforma em qualidade, já que a gente tem no horizonte próximo uma eleição. Nós temos uma figura pública da expressão nacional de ACM Neto, o presidente do DEM, que agora se junta a uma figura pública de pouca expressão, que o momento de maior expressão dela foi quando entrou em embate diretamente com Bolsonaro, que é o Luciano Bivar; e essa figura pública agora apostando na quantidade, supõe que essa quantidade vai se reverter em qualidade, mas não está claro se daqui até 2022 esses bolsonaristas que se vitaminaram na eleição de 2018 e que tornaram o PSL partido quantitativamente grande, vão permanecer e de um lado dentro da União Brasil e do outro lado, sendo capazes de reunir em torno de si eleitores, apoiadores para serem reconduzidos ao seus mandatos ou quem sabe pleitearem outros, cargos no executivo por exemplo”.

O especialista aponta que o ex-prefeito de Salvador se favorecesse pessoalmente com essa transformação, que resultará, entre outras coisas, em um maior tempo de exposição midiática na TV e dinheiro para gastar na sua eventual candidatura ao governo da Bahia. Zacarias avalia que esse processo de fusão DEM-PSL é parte de uma acomodação da direita e da extrema-direita.
“O próprio ACM Neto nessa aposta, na Bahia, e que claro, quantitativamente lhe favorece; porque apesar do PSL não ser um grande partido na Bahia, ele pode inclusive tornar mais difícil o acesso a partidos que estão na base de Rui Costa, porque as incursões que ele vinha fazendo e que podem ter maiores dificuldades ainda de se deslocarem da base de Rui Costa para uma eventual aliança com ACM neto na Bahia, para disputa ao governo do estado. Em função de tudo que tem representado a extrema-direita brasileira, o bolsonarismo, enfim. O que me parece é que a reconfiguração desse quadro, a nova configuração que surge é uma tentativa de acomodação das forças da direita e da extrema-direita brasileira, que ainda pretendem dar uma sobrevida ao discurso que emergiu desde 2016 e que elegeu Bolsonaro e que vem sustentando o presidente”.
Bolsonarismo
O professor da UFBA e especialista em história política aponta para uma mudança de cenário que deve ocorrer nas eleições do próximo ano, que começou nas eleições do ano passado:
“Como todo esse discurso vem se esvaziando, vem perdendo a força, e as pesquisas têm indicado que afinal de contas aquilo que que os conservadores, os supostamente conservadores celebravam, que os brasileiros são conservadores, não se confirmam pelas pesquisas. Esse fôlego imenso do conservadorismo foi muito circunstancial e certamente deve-se acomodar em outras bases a partir de 2022; quando todos os sinais indicam que a política comum, aquilo que a gente chamaria com todos os cuidados possíveis de política tradicional, pode dar as cartas, pode novamente hegemonizar a discussão no país, porque, afinal de contas, a gente não pode viver no limite tratando de coisas absurdas como a gente fez até aqui”.

O especialista complementa:
“Então a gente já viu isso na eleição passada, nas eleições municipais passadas, em que houve uma ‘reemergência’ das políticas tradicionais, dos políticos tradicionais e uma derrota do bolsonarismo, e isso pode ainda ser mais forte não ano que vem, quando muito provavelmente a figura de Lula vai atrair sobre si muitos interesses e muito dificilmente um extremismo de direita vai concorrer com chances de fazer como fez em 2018; ter em torno de si muitos apoiadores, esses apoiadores muito mobilizados e recheado de ódio para para enfrentar tudo e a todos. Não parece que vai ser assim, eu acho que os setores políticos estão vacinados e perceberam que essa onda passou e vão tentar surfar numa outra onda. A questão é saber qual é a onda que está por vir. Pode ser a onda do lulismo ou do centro político novamente; o Lula tem feito acordo aí buscar o tempo todo pelo centro e é muito provável que que a disputa pelo Centro seja a face da eleição de 2022”.
Carlos Zacarias acredita que muito dificilmente o União Brasil conseguirá se alinhar ao centro mantendo sua atual composição, sendo mais fácil ser direcionado para direita: “O que a União Brasil muito dificilmente vai, é um segmento que a União Brasil muito dificilmente vai se configurar, porque é claro que na régua do espectro ideológico brasileiro, a junção de um partido ideológico de direita com um partido que elegeu um extremista, vai pender mais ainda para direta; não para um extremismo bolsonarista, protofacista, mas o Dem se torna mais à direita e o PSL não necessariamente vem mais para o centro pela sua ligação com o DEM, vai permanecer em seu lugar”.



