Parlamentares ouvidos pelo OFF News apontam que escândalo da Covaxin causa fragilização de Bolsonaro, põe em xeque discurso de integridade do governo e provoca exposição de líder na Câmara

Ricardo Barros e Bolsonaro

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O escândalo envolvendo o contrato para compra da vacina Covaxin deve expor as entranhas do governo Bolsonaro e colocar em exposição o seu líder na Câmara dos Deputados, o ex-ministro da Saúde Ricardo Barros (PP).

Barros teria sido citado por Jair Bolsonaro (sem partido) em reunião no Palácio do Planalto, em março, em que o deputado Luis Miranda (DEM-DF) denunciou um esquema para compra superfaturada da Covaxin via offshore de Cingapura, segundo disse o parlamentar do DEM em oitiva na CPI da Pandemia, na última sexta-feira (25). 

O parlamentar é irmão de Luis Ricardo Miranda, servidor concursado da área de importação do Ministério da Saúde que estava sendo pressionado pelo ex-secretário-executivo da pasta, Élcio Franco, e pelos os servidores Alex Leal Marinho, Coronel Pires e Roberto Ferreira Dias para autorizar a importação da Covaxin com inconsistências contratuais. A pressão teria sido feita a mando de Ricardo Barros, segundo o parlamentar deu a entender em depoimento.

Apesar de ter sido informado do esquema e prometido acionar o delegado-geral da Polícia Federal para apurar o caso, o presidente da República nada teria feito na relação ao ilícito, até a última quinta-feira (24), quando afirmou em entrevista que solicitou apuração da PF.

O contrato com a Covaxin foi acertado em fevereiro de 2021, ao preço de 15 dólares a dose. O documento para exportação teve que ser refeito ao menos três vezes por divergência nos valores e a inclusão de uma offshore de fora do contrato. O governo reservou R$ 1,6 bilhão para aquisição da vacina contra Covid-19. O imunizante, que foi o único a ser contratado via uma empresa intermediária, teve problemas apontados em relação ao alto custo, efeitos adversos graves, falta de registro na Anvisa, falha de guarda ou transporte e validade.  

Repercussão política

O deputado federal Daniel Almeida (PCdoB) avalia que o escândalo fragiliza o presidente da República em um momento já delicado, em que ele enfrenta queda de intenção de votos e aumento da rejeição ao seu governo.  

“Do ponto de vista político, esse fato tem um impacto extraordinário, pois leva a corrupção para o gabinete do Presidente da República. Não tem como o presidente negar a prevaricação que ele cometeu nesse ato, na atitude que teve [de não investigar]. Isso terá muita repercussão política, que afetará diretamente o presidente”, destacou Almeida. 

O parlamentar Félix Mendonça (PDT) é outro que acredita que o depoimento dos irmãos Miranda, na última sexta-feira (25), coloca gasolina no ambiente político no Palácio do Planalto: “Está de arrombar, ninguém sabe se desse jeito Bolsonaro continua e nem se chegará a ser candidato em 2022”. 

Para o deputado federal Zé Neto (PT), o depoimento dos deputado federal do Democratas e de seu irmão, servidor do Ministério da Saúde, tem caráter confirmatório e serve para demolir uma falácia criada em torno do governo Bolsonaro. 

“A máscara do governo caiu. Essa situação da vacina, a primeira coisa que me lembrei foi que, enquanto tudo isso acontecia, eles dificultavam a chegada da vacina Sputnik V, aprovada em mais de 80 países e comprada pela Bahia. Agora, da forma que foi colocada na CPI, com riqueza de detalhes, é muito difícil que Bolsonaro não tenha conhecimento; como também das ligações com o crime ao longo de dois anos e meio: o caso das milícias [Adriano da Nóbrega e Marielle], de pessoas de seu gabinete que recebiam sem trabalhar [funcionário fantasmas enquanto deputado federal por São Paulo], são ligações íntimas com o crime. As denúncias vão aparecendo e mais recente culminou com a saída de Ricardo Salles para não ser preso. O governo que se pautava em uma narrativa falaciosa de honestidade, probidade, isso e aquilo, vai se diluindo…”, ironizou o petista. 

Líder

No olho do furacão estará também o deputado Ricardo Barros (PP), que deve ter sua convocação aprovada pela CPI da Pandemia na próxima semana. Os parlamentares avaliam que o seu colega terá que dar explicações convincentes acerca das graves denúncias.   

“Ele deve prestar depoimentos na CPI e, como ex-ministro da Saúde, não poderá negar ausência de conhecimento técnico dos processos. Por ser ex-ministro e líder do governo, a participação dele se torna mais decisiva e importante. Se os fatos que estão sendo atribuídos a ele forem comprovados, sem dúvida caberá um posterior procedimento no Conselho de Ética”, ressaltou Daniel Almeida (PCdoB). 

O deputado federal do PDT da Bahia afirma ainda não saber dizer se o fato é para Conselho de Ética da Câmara, já que pode ter ocorrido enquanto Ministro da Saúde, mas avalia que ele terá que dar explicações acerca dos fortes indícios apontados: “agora, ele vai precisar se explicar, a gente não pode também ficar se baseando só por acusações, no ouvir falar”. 

Zé Neto (PT) também evita pré julgamentos, mas aponta que o líder do governo Bolsonaro na Câmara ficou em uma situação delicada após ser apontado como possível autor do esquema criminoso que poderia ter resultado em um prejuízo de R$46 milhões. 

“Julgá-lo agora, pelo que foi dito, seria injusto da nossa parte. É preciso dar oportunidade para que coloque as coisas no lugar, que os fatos sejam esclarecidos, não podemos usar da tática bolsonaristas de acusar sem direito à defesa. Vamos esperar que ele se explique; agora, é uma situação delicada e a tendência é que ele seja mais um a ser excluído do fronte sustentação do governo”, opinou o deputado federal do PT.

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