Quando sair para ajudar alguém, deixe a câmera do celular desligada

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Eu acho massa essa ideia de grupos solidários. Pessoas generosas que, no meio do caos, saem da sua zona de conforto, fazem um esforço e se tornam gotas positivas nesse oceano tão duro e difícil que pode ser a vida para algumas camadas da sociedade. Ir até onde o poder público não alcança. Acolher quem ainda está vulnerável e distante das políticas públicas. Compartilhar afeto. Carinho. Levar, pelo menos por alguns dias, a tranquilidade de uma cesta básica para quem não tinha nada para comer. 
Nessa pandemia vi vários grupos surgindo e outros se fortalecendo. Enquanto muitos ficaram em casa, outros foram para as ruas. Distribuíram sopa, fizeram movimentos dentro de condomínios, bairros e lives para amenizar o impacto das restrições e quarentena. 

Por falar nisso, essa semana escutei de uma professora de Manaus sobre a pandemia: Não estamos no mesmo barco. Estamos em barcos diferentes enfrentando a mesma tempestade. Tem gente passando por essa pandemia em lanchas, iates, cruzeiros. Outros em veleiros. Outros em jangadas. Canoas. E tem gente só com o bote salva vidas e a própria sorte. 

Eu não vou querer debater aqui se é certo ou errado a midiatização da solidariedade. É bom compartilhar boas ações. É bom compartilhar generosidade e contagiar outras pessoas para que façam o mesmo. O que me incomoda, de verdade, é o excesso. 
A pandemia veio em ano eleitoral e isso potencializou gestos midiáticos em torno da dificuldade alheia. Fora que a vaidade, em alguns casos, transpassa a tela do celular. Fotos e vídeos no Instagram com mãos entregando o pão. Curtidas e comentários. Textos na legenda com pensamentos em primeira pessoa gritando ao mundo: olha, eu sou legal. Penso nos pobres. 

Mas e aí, na real, no dia a dia, quando a câmera desliga e o celular volta para o bolso? Quando a conexão cai e a live deixa de ser transmita? Será que no dia seguinte o nome da pessoa que recebeu a cesta básica é lembrado? Será que o seu candidato, aquele que você está defendendo com afinco nas redes sociais, pensa em resolver problemas sérios e luta pelo fim da desigualdade? Quais são os projetos dele quanto a isso? 

Um dia vi isso acontecer na minha frente. Estava perto. Celular ligado, poses para fotos com cesta básica nas mãos e sorriso no rosto. Depois o celular desligado e a cara fechada. A falta de paciência. A volta corrida pro carro da moda. Não tenho dúvidas que ao chegar em casa, aquele cidadão de bem escolheu a melhor foto e postou para os seus seguidores a imagem do dia. 

A sua generosidade pode ser expandida, sim. Você pode, com certeza, contagiar outras pessoas espalhando e compartilhando gestos solidários. Mas a pobreza, a desigualdade e a miséria não podem virar um espetáculo que alimenta o ego e a vaidade de quem tem garantido um prato de comida na mesa todos os dias. 

Tem uma frase bonita que diz assim: Dar com a mão direita sem que a esquerda perceba. E talvez seja por aí. Mobilize, busque, movimente pessoas em torno de um objetivo comum. Seja uma gota nesse oceano tão imenso e tão repleto de desigualdade. Mas se por um acaso você perceber que a fome é do seu ego, respire fundo, desligue a câmera do celular e coloque no bolso. Quando você se conecta de verdade com a situação real, você entende que o mundo precisa de muito mais do que os likes  de uma foto sua doando cesta básica. 
 

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