Moradores tradicionais de Trancoso, no município de Porto Seguro (BA), denunciam um histórico de grilagem de terras, fraudes documentais e ameaças que se intensificaram nos últimos anos, envolvendo uma área conhecida como Terras do Rio Verde. A região, segundo os relatos, pertence há décadas a famílias locais, com registros de posse e documentação datada desde 1964.
O conflito ganhou novos contornos em 2022, quando tapumes foram instalados em parte da área, apelidada de “Ilha do Urubu”, bloqueando o acesso dos moradores e dando início ao desmatamento. A área de 20 hectares, de matrícula nº 26.733 — atualmente bloqueada pela Justiça — teria sido “doada” em 2006 a um grupo privado e, posteriormente, vendida a um empresário ligado ao setor imobiliário.
O caso se tornou ainda mais complexo quando outro interessado surgiu alegando ser proprietário do terreno com base na matrícula nº 13.188, proveniente de uma suposta negociação feita por uma figura apontada por moradores como responsável por iniciar, na década de 1970, a prática de aquisição de terras locais por meio de documentos falsos e hipotecas questionáveis.
De acordo com os denunciantes, essa matrícula, apelidada de “matrícula voadora”, teria origem em uma área distante — na região de Itaquena — e estaria sendo usada para reivindicar propriedades tradicionalmente ocupadas por comunidades locais. Mesmo após decisão judicial favorável às famílias em 2021, novas decisões judiciais têm alimentado a insegurança jurídica na região, permitindo que disputas continuem.
Relatos dos moradores incluem destruição de documentos, incêndios em propriedades, perseguições físicas e tentativas de deslegitimar herdeiros legítimos por meio de negociações envolvendo supostos direitos de herança. A acusação é de que o grupo adversário teria adquirido, em 2023, direitos de pessoas sem legitimidade sobre as terras, tentando usar esses documentos para ocupar as áreas à força.
Em 2025, a Justiça determinou o sequestro do bem e bloqueou ações baseadas na matrícula questionada. Ainda assim, os conflitos seguem, com tentativas judiciais de reverter as decisões.
A comunidade local, composta majoritariamente por pessoas de baixa renda e, em muitos casos, analfabetas, afirma estar desamparada diante de um processo que envolve poder econômico e práticas consideradas irregulares. “Eles sabiam que estávamos vulneráveis. Usaram disso para tomar nossas terras com malícia e falsidade”, desabafa um dos moradores.
O caso evidencia a gravidade da violência fundiária no sul da Bahia, região marcada por conflitos entre famílias tradicionais e interesses econômicos ligados à especulação imobiliária em áreas de alto valor turístico e ambiental. As denúncias estão sendo encaminhadas à Justiça e ao Ministério Público, na tentativa de garantir o direito à permanência das famílias em seus territórios de origem.