Um dos donos do Hospital Santa Clara, utilizado pela Prefeitura de Salvador como centro de referência para o atendimento Covid-19 desde 2020 e desmobilizado no início do mês, o advogado Francisco César Nascimento Souza procurou o OFF News para denunciar um calote de 8 meses de aluguel que sofreu ao alugar o espaço para uso das gestões ACM Neto (DEM) e Bruno Reis (DEM). O vínculo com o município ocorreu no período da 2º onda da Covid-19, em dezembro; na 1º onda, até outubro, o prédio está sendo utilizado pelo Governo da Bahia.

A previsão do pagamento de R$100 mil/mês pelo uso do equipamento não saiu do papel, tendo o município utilizado e repassado a gestão do hospital para duas organizações sociais durante o período; a segunda, sem ao menos nem ter consultado o proprietário, que à época lutava para receber o valor devido no período da primeira OS. Francisco alega ainda que no período em que ocuparam o prédio que fica no Itaigara, o município e as Organizações Sociais não pagaram o IPTU e nem as contas de energia elétrica e de fornecimento de água. O processo de desmobilização do local pela PMS ocorreu no último dia 16 de julho.

Hospital no Itaigara foi utilizado pelo Governo da Bahia antes de ser repassado ao município / Foto: Governo da Bahia

Albatroz

O Instituto Albatroz fez a gestão do espaço de dezembro de 2020 a abril de 2021, quando teve seu contrato rescindido após deixar de pagar funcionários e pacientes irem a público reclamar da falta de médicos e de insumos no local.

Segundo o site transparência da PMS, o instituto recebeu quase R$2 milhões de reais do município. O instituto emitiu nota à época alegando que a Prefeitura de Salvador não estava fazendo os repasses, coisa que também alegava ao empresário dono do espaço para não repassar o valor dos aluguéis atrasados.

“O contrato foi firmado pelo Hospital Santa Clara, o Instituto Albatroz e a Prefeitura Municipal de Salvador. O hospital alugava o espaço e os atendimentos, a gestão era feita pelo Albatroz. Apesar do espaço ter sido utilizado, como previsto em contrato, o repasse não foi feito, não recebi qualquer valor”, destacou Francisco Souza.

Dois de Julho

O empresário explica que enquanto tentava uma solução para receber os aluguéis devido pelo Albatroz, foi surpreendido pelo anúncio de descredenciamento do instituto feito pela prefeitura e o anúncio do Instituto Dois de Julho como a nova organização gestora do local, fato feito somente entre o município e a OS, sem consultar o dono do espaço: “ainda na busca por resolver as pendências junto ao instituto Albatroz e a prefeitura, a gestão descredenciou o Albatroz e colocou o Instituto Dois de Julho, sem me avisar, sem ajustar o período da OS anterior”.

Contrato com instituto Albatroz cita Hospital Santa Clara / Foto: Reprodução

O dono do Hospital Santa Clara afirma que, mesmo após a mudança de gestão, o problema continuou e resolveu procurar a Secretaria de Saúde na busca de uma solução, já que, apesar dele estar sem receber os valores devido pelo uso, o local funcionava normalmente.

Nessas andanças pela SMS ele conseguiu o contato do secretário de Saúde, Léo Prates (DEM), que, ao entrar em contato, prometeu resolver o problema com brevidade. Diante da falta de resolutividade e das cobranças do empresário proprietário do Santa Clara, Prates colocou o como interlocutor o subsecretário Decio Martins Mendes Filho, que manteve a cartilha de promessas de pagamento ao empresário não efetuadas.

“Ao tomar conhecimento que tinha mudado o instituto, procurei a SMS e dei entrada em um processo, tenho processo solicitando o pagamento dos períodos. Eles ficaram de resolver e nunca fizeram nada. Passou-se o tempo do Albatroz, depois da gestão do Dois de Julho, e nada aconteceu. No último dia 16, fui surpreendido com o processo de desmobilização do hospital, onde iria retirar todos equipamentos. Na iminência de ficar sem receber nada e sem nenhum suporte para garantia do pagamento. Somente em razão da garantia, fui lá e convidei todos funcionários a se retirarem da dependência e tranquei a unidade”, destacou Francisco.

O ato de Francisco gerou uma queixa na Polícia Civil, feita por representantes do instituto Dois de Julho e da SMS contra ele. O empresário afirma que também registrou uma ocorrência contra o instituto e contra Secretária Municipal de Saúde. Ele alega que o município retirou diversos equipamentos do hospital, incluindo todos os respiradores.

Veículos da PMS utilizado na desmobilização do Hospital Santa Clara / Foto: Divulgação

Requisição

O OFF News procurou a Secretaria Municipal de Saúde que informou em nota que “vinha efetuando todos os pagamentos ao Instituto Albatroz” e “todavia foi noticiado que os empregados que laboravam na unidade não estavam recebendo os salários”. E, diante disso, “após mediação com o Ministério Público do Trabalho, com a participação do próprio Instituto Albatroz, os valores sobressalentes foram depositados em juízo a favor da justiça do trabalho”.

A secretaria explicou no comunicado que “a contratação do Instituto Albatroz se deu mediante credenciamento de leitos e não havia qualquer relação do Município com o suposto proprietário do imóvel”.

“No que tange a contratação do Instituto Dois de Julho, o mesmo se deu por contrato de gestão, onde não estava prevista a locação do imóvel. Desta forma, o Município efetuou a requisição administrativa do mesmo. Ressalte-se que conforme previsto na Constituição, na hipótese de requisição administrativa, onde em casos de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano”, diz a SMS em nota.

O empresário nega que o município tenha utilizado o regime da requisição administrativa para ocupar o prédio. Ele cobrou como prova o documento do ato e a sua publicação em Diário Oficial.

O OFF News provocou a SMS, que enviou um documento da gestão ACM Neto (DEM) que autoriza o uso da requisição administrativa durante o período pandêmico em Salvador, mas que não tratava especificamente sobre o uso compulsório do Hospital Santa Clara.

O OFF News cobrou a requisição do Hospital que fica no Itaigara, mas até o fechamento desta reportagem não obteve o documento de Abril, comprovando o ato quando a nova gestora assumiu o estabelecimento.

“Ressalto que as alegações da prefeitura são infundadas e não revelam a legitimidade para ocupação da propriedade privada. Nunca houve requisição administrativa alguma. A que ele informa é um ato pretérito, sem objeto específico, editada na época em que o HSC estava sob a administração do Governo do Estado, este sim fez a requisição administrativa e durante todo o ano de 2020 esteve sob a gestão do Hospital. Em que pese também não tenham paga nada até agora” revelou Francisco César.

Impasse

A SMS explicou na nota que comunicou o empresário da requisição administrativa para o uso do espaço e da desmobilização.

“A Secretaria Municipal de Saúde, na presente data, efetuou a notificação do Sr. Francisco César, ao qual se intitula como proprietário do imóvel, informando acerca da requisição administrativa e solicitando a desocupação do imóvel para a retirada dos bens públicos”, diz o comunicado da SMS.

Prefeitura não envia documento comprovado requisição administrativa em Abril, mas usa notificação de desmobilização do hospital, em 16 de Julho, para lembrar do ato

Ao ser impedida de retirar alguns equipamentos do prédio, o município disse que “está adotando todas as medidas cabíveis, inclusive junto à Procuradoria, a fim de reaver os bens públicos”. E deixa claro que “eventual indenização devida” pelo ato de requisição administrativa, será discutida nos moldes previstos na Constituição Federal e sendo devido qualquer valor o mesmo será integralmente pago pelo Município.

“A Secretaria foi notificada pelo Instituto 2 de Julho informando que o Sr. Francisco César compareceu com dois homens supostamente armados, surpreendendo o porteiro de forma agressiva e ameaçadora, subtraindo as chaves de acesso dos portões, trancando os mesmos e aos gritos exigiu a retirada de todos os funcionários. O instituto informou ainda que a equipe ameaçada registrou ocorrência na 16ª Delegacia Polícia responsável, sendo que o Boletim de Ocorrência número 4671/2021 assim que for disponibilizado, será remetido à Secretaria Municipal de Saúde”, diz a nota.

Chegada do empresário para impedir desmobilização do local gerou tumulto / Divulgação

O empresário negou que tenha comparecido ao local com homens armados, mas admitiu que utilizou dois seguranças para ajudá-lo na evacuação e fechamento do seu prédio. Eles destaca que os funcionários da empresa que fazia gestão do local levaram todos os seus pertences e que na unidade ficou apenas equipamentos médico-hospitalares.

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