O depoimento do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, deve ser mesmo o divisor de águas para CPI da Covid, é o que avalia os especialistas ouvidos pelo OFF News.
À frente do Ministério da Saúde no período de maior descontrole na pandemia, o general do Exército Brasileiro, cujo depoimento estava marcado para o dia 12 de maio, e que foi adiado para o dia 19 de maio, após ele alegar que teve contato com servidores que testaram positivo para o novo coronavírus, deverá ser o mais tenso da comissão de inquérito que investiga as ações e omissões do governo federal na pandemia da Covid-19.
“O depoimento de Pazuello é a cereja do bolo. Estamos acompanhando como é que Bolsonaro está tratando da questão, do medo que Bolsonaro tem, de modo que moveu parte do governo para assessorar o ex-ministro da Saúde nessa empreitada. Pazuello não é político, tem pouca habilidade com as palavras e já demonstrou pouca habilidade também lidar com as diferenças; nós vemos como ele lidou com os jornalistas naquele episódio em que ele disse que jornalistas têm que retratar os fatos”, avalia o doutor em História e professor da UFBA, especialista em história política, Carlos Zacarias.

O especialista em história política avalia que “Pazuello é corresponsável pela má gestão da pandemia” que produziu milhares de mortes no país, e que o ex-ministro da Saúde tem consciência que “diferente de Bolsonaro, ele pode sair dali, não para prisão, mas absolutamente comprometido”. Ele lembra que Pazuello também está sendo orientado pela AGU (Advocacia-Geral da União), para que caso tenha que participar da oitiva como ocorreu com os outros ministros, o general do Exército saiba como se comportar e como não se comprometer e não comprometer Jair Bolsonaro.
“Por isso ele quer se salvaguardar, talvez com um habeas corpus, porque, apesar de ir prestar depoimento como testemunha, ele sabe que está sendo investigado e por isso deve entrar com pedido no Supremo, para usufruir do direito de ficar calado. Não sabemos se ele vai fazer isso e, fazendo, se o Supremo vai assegurar esse direito”, pontua Zacarias, tratando da hipótese ventilada pela mídia na última semana, de que o ex-ministro do governo Bolsonaro estava estudando uma ida ao Supremo se blindar.
Para o cientista político e professor da Unilab, Cláudio André, o ex-ministro da Saúde, ao adiar o depoimento e ventilar ações que pode adotar, a exemplo de um habeas corpus no STF (Supremo Tribunal Federal), está ganhando tempo, saindo dos holofotes, para se preparar: “A partir do momento em que um ministro de estado senta na cadeira da CPI, ele precisa não só contar a verdade, como precisa responder. Então, eu acho que esse tempo que está que conseguiu após manobrar, tem uma relação intrínseca com o necessário para uma preparação, para um media training, enfim, para que ele consiga preparar as respostas centrais a serem dadas lá na CPI da Covid”.
Morno
O cientista político classifica como “morna” a primeira semana da CPI da Covid. Ele pontua que por estarmos ainda em um período complicado da pandemia, a CPI acaba tendo que dividir os holofotes com outras demandas, a exemplo do imbróglio envolvendo o vai e volta da imunização contra covid-19 no país e o debate sobre volta às aulas.
Eu acho que nessa primeira semana a gente conseguiu perceber que há uma estratégia muito clara por parte dos senadores de oposição ao governo, de buscar estabelecer linhas de raciocínio, fios Condutores em torno da perspectiva de mostrar o quanto o governo foi ineficiente e talvez até cúmplice de uma política pública contra o isolamento social e contra a compra da vacina. O que se comprovando, é algo muito grave”, avalia Cláudio André.

Carlos Zacarias aponta que essa semana há depoimentos técnicos importantes para se compreender o desenrolar da pandemia: o do presidente da FioCruz, do Butantan e do diretores responsável pela vacina da Pfizer.
No aspecto político ele aponta que o depoimento de Fabio Wajngarten pode trazer elementos novo e complicadores adicionais para o governo do presidente Jair Bolsonaro.
“Ainda não sabemos como ele irá se comportar. Porque, apesar de ter sido muito alinhado com Bolsonaro, ele pode ter suas rusgas, já que não foi retirado em uma situações muito favorável, muito embora Bolsonaro tenha tentado preservá-lo. Fábio pode trazer alguns elementos que confirmem a má gestão da pandemia no plano da comunicação, já que o governo não fez nenhuma comunicação em relação à instrução da população, a orientação contra Covid. Na verdade, o governo preparou uma comunicação que sugeria o tratamento precoce, e isso vai ser questionado ao Wajngarten”, destaca o especialista em história política.

Blindagem
Os especialistas são unânimes em apontar que o presidente da República está atuando de forma pesada para afetar os trabalhos da CPI da Covid, vendo que os rumos que está sendo dado poderá atingi-lo em breve.
“O que dá para perceber até aqui, como uma linha contínua, é que o governo tem pavor de CPI. O presidente Bolsonaro e os auxiliares diretos dele enxergam que a CPI da Covid pode abrir um processo de desgaste que vai se complementar com o que virá ao longo do segundo semestre”, avalia o professor da Unilab, que complementa apontado o fato da “economia ainda estar patinando, e, se somando a isso, a estagnação na geração de empregos, a perda de renda e o fim do auxílio emergencial: a gente já falava que o auxílio é pouco mas pior será quando ele acabar”.
Diante desse cenário complexo, André lembra que os dados mostram que a gente não vacinou com a primeira dose nem 20% da população brasileira: “Então a gente tá correndo esse risco, de ter um cenário em que a CPI se veja envolvida no momento conjuntural e isso pode de fato desgastar o governo. Essa é a grande preocupação que está colocada e Bolsonaro fará de tudo para limitar a capacidade política da CPI desgastar o seu governo”.

Zacarias avalia que fatalmente Bolsonaro e seu governo estarão irão se aproximar do olho do furacão a cada oitiva na CPI da Covid, até ser engolido por ele. Ele avalia que está mais que evidente que “Jair Bolsonaro é o responsável” pelos 430 mil mortos, pela má gestão da pandemia, falta de vacinas, indicação do tratamento precoce que não é reconhecido por nenhum país do mundo e pela falta de oxigênio vidade em Manaus e em outros estados da nação.
“A CPI da Covid, nas duas primeiras semanas, já produziu muito fato político e certamente vai produzir ainda mais fatos políticos que irão desgastar a imagem deste governo que, apesar de tudo preserva sua base de fanáticos, porque é uma base que não lida com fatos, não lida com a realidade, lida apenas com a sensação de conforto que tem com as informações falsas na maior parte do tempo que Bolsonaro ele passa”, ressaltou Zacarias.